terça-feira, 3 de julho de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
"Acabou"

Não volto a fazer isto. Fi-lo vezes demais. Tenho o corpo carregado deste cheiro pestilento do qual talvez nunca me venha a livrar, da mesma forma que na memória, aquelas faces sem vida me vão acompanhar sempre. Mas uma coisa é certa, este é o meu último cadáver.
Trabalho limpo, quase perfeito. Dois disparos á queima roupa e um cérebro desfeito, o resto do corpo imaculado, como que a pedir mais vida e seguramente a alma intacta. Guardou o corpo e como era sexta-feira, só lá para segunda ou terça alguém lhe voltaria a mexer.
O plano de fuga estava delineado há muito. Malas de viagem no carro, bilhetes de avião e reservas de hotel confirmadas. Agora só reserva para um, porque apesar de bisonhada, esta evasão não contava com a colaboração da parceira inseparável, já que esta se separou. Também ela assassinada por um tal Kaposi, que nunca ninguém vai conseguir apanhar. Sentia-lhe a ausência física, mas sabia que ao contrário das almas dos seus mortos, que ficavam junto a eles, atentas, a dela soltou-se e acompanha-o sempre.
Tudo limpo. É hora de partir. Como já é tarde, evitam-se encontros e conversas mais ou menos iguais sobre essa coisa estranha chamada reforma, da qual tanto tinha ouvido falar mas só agora estava prestes a viver. Naquele momento deixou no frigorífico da morgue a sua paixão de mais de quarenta anos pela medicina legal.
Apagou a luz, fechou a porta, saiu e disse de maneira que a alma dela ouvisse:
Sabes, quando não estás, faz mais frio.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Balcão 63

Eram quase nove da noite. Chegaram ao aeroporto. Os vinhos e as memórias de infância continuavam a ocupar os discursos dos dois sujeitos conscientes da enorme ausência que iriam viver daqui para a frente. Chegou a hora de entrar. Trocaram um quase abraço e momentos antes de cruzar a porta, trocaram um quase olhar, evitando uma quase lágrima. No turbilhão das emoções e das centenas de destinos que se cruzam naquele espaço, procurou alguma orientação no visor que anunciava as partidas. Lá estava. Confirmado. Check in balcão 63. Tudo normal, como se nada de extraordinário se passasse. Sem sobressaltos, como se fosse normal alguém ter de partir para recomeçar uma vida, justamente na idade em que a deveria ter consolidada e estável.
Eram quase dez da noite e a espera inútil ganhava peso. Pelas janelas da aerogare mal se via o céu. Fez um esforço, abeirou-se da janela e fitou o céu de Lisboa pela última vez, ou pelo menos o que a chuva deixava ver dele. Quase que viu aquele céu, mas tinha a memória da luz deste céu, juntamente com milhões de memórias que lhe trituravam o cérebro e seguramente pesavam muito mais do que a bagagem.
Eram quase onze da noite e a chamada para o embarque foi mais um exemplo de rigor, exactidão e segurança, como se os serviços aeroportuários estivessem a gozar com a falta de rigor da vida ela própria. Sentado no lugar que lhe destinaram, preparou-se para a descolagem e quando o avião se elevou no ar, a sensação de vazio no estômago foi ainda mais vazia que o habitual. Perdeu o contacto físico com aquele chão e sabia que esse era o primeiro passo para se libertar do que ficara para trás, não sentia essa liberdade, pelo menos para já. Não voltou a olhar pela janela, mesmo sabendo como era bonita vista do ar aquela cidade á beira Tejo.
Era quase meia noite quando retirou do bolso a carta que o amigo lhe tinha dado naquela quase despedida e onde ficara acordado que a abertura da mesma teria lugar já em pleno voo. Abriu-a. Lá dentro uma série de frases simpáticas que bem poderiam ter sido pronunciadas na tal quase despedida, mas que pelos vistos o interlocutor foi incapaz de o fazer de outra forma que não a escrita. Tinha ainda uma citação de um poeta que dizia ser hoje o primeiro dia do resto da sua vida e que a coragem se bebe até de um copo sem fundo. Aquelas palavras resumiam muito do que sabia ter de fazer e funcionaram como um murro no estômago que quase lhe fez perder a respiração.
Era quase uma da manhã. Encostou-se. Quase que adormeceu, quase esqueceu tudo. Lembrou apenas que amanhã o nascer do sol seria seguramente muito mais do que um quase nascer do sol.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
Gravata

O telefone tocou. Era o velho amigo João que com uma voz feliz lhe anunciou um casamento. Era o segundo e parece que desta o João estava decidido a investir numa vida a dois. Seria uma cerimónia simples e reservada aos mais chegados. Tudo foi agendado para 31 de Março, quase como que anunciando o final do prazo para que tudo fosse verdade. Faltavam quinze dias e decidiu de imediato tratar do “uniforme” apropriado. Já tinha um fato cinza muito recente, uma camisa azul daquelas que funcionam bem com tudo e pensou numa gravata vermelha. Porquê vermelha? Talvez um reflexo exterior da alegria sentida ou talvez uma homenagem ao João e a outros amigos com quem se partilha a mesma paixão clubistíca. Certo é que não tinha uma gravata vermelha e talvez até fosse essa a razão de tal escolha.
Na manhã seguinte partiu numa cruzada em busca dessa gravata sonhada e que teria um vermelho menos óbvio, que funcionasse, mas que seguramente ainda só havia sido fabricada nos seus sonhos. Várias horas e muitas lojas depois, aquele mega centro comercial parecia um deserto onde só encontrou frases simpáticas de empregadas de balcão. Do tipo:
Fica-lhe tão bem…, é mesmo o que combina com o seu tom de pele…, muito elegante…, etc.
Certo é que no final da manhã a gravata sonhada era ainda prisioneira dos seus sonhos.
Tudo aquilo o incomodava. Nunca fora ensinado a ser consumista, até porque as suas origens não sendo pobres, eram remediadas, contidas nos gastos e sobretudo pouco dadas a futilidades. Atropelava os seus princípios, educação e valores e isso magoava-o, sobretudo porque lhe dava prazer. Quase um combate corpo a corpo, com apenas um lutador, mas a verdade é que retirava prazer daquela busca e talvez nem quisesse encontrar a dita gravata, se isso acontecesse, terminaria essa busca tão prazeirosa. O objectivo era a busca, não a descoberta. Tinha esta consciência, dava-lhe pouca atenção, quase a devotava ao abandono, apenas porque também ela o contrariava nos seus conceitos e preconceitos herdados. Mas que diabo! Há razão para tanto incómodo? . A idade, a independência económica e até a solidão, deixaram para trás as críticas alheias e também o que não se sabe, não se comenta e seguramente ele manteria o silêncio.
Quinze dias depois foi ao dito casamento. Ficou feliz pelo João e sentiu como sua aquela conquista. No fim do dia regressou a casa e a primeira coisa que tirou foi a gravata. Era castanha, nova, bonita, mas não era aquela que ainda estava no seu pensamento, em prisão domiciliária e talvez condenada a prisão perpétua.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
Sol do sorriso

O clima molda as pessoas. Se é verdade que o frio tolhe os movimentos, também é verdade que o sol abre os espíritos e os corpos. Por essa razão, naquela manhã de domingo era impossível ficar na cama e nada melhor do que seguir o apelo da descoberta do charme de Lisboa. Já tinha ouvido falar das vilas operárias da Graça, embora nunca as tivesse tocado com os pés, nem com os olhos.
Se a busca era a da surpresa, foi fácil encontrá-la apenas alguns metros abaixo da rua principal, a tal que já calcorreara vezes sem conta, guiado pela pressa que menosprezava a rua de trás, com a sua pacatez de aldeia enxertada na malha urbana e ainda assim senhora de espaço e alma próprias. Como estes passeios sem hora marcada, são víciantes para o cérebro, o melhor era não desembarcar e seguir viagem desfrutando ao máximo dos estímulos para os sentidos. Era demasiado cedo para almoçar naquele restaurante fantástico, que tinha contra si apenas o facto de ser um dejá vu. Ainda bem que o estômago não reclamou e deixou o andar vaguear até ao miradouro frente á igreja, outrora convento Agostinho, com um milhão de histórias e lendas, situado frente a uma das mais belas paisagens da cidade.
Sentia no ar o cheiro de terreno de batalha abandonado, séculos de histórias encavalitados num espaço tão pequeno, fizeram de Lisboa uma das cidades mais humanas do mundo e isso sente-se a cada recanto. Nunca se está só nesta cidade. Por mais que se queira há sempre uma estátua, uma história, uma obra, uma placa, que nos recordam que por aqui passaram milhões de almas, em tempos tão diferentes.
Os passos andaram pelas escolas gerais e as memórias da primeira universidade, até mergulharem nas vielas da Alfama profunda, aquela que ao princípio parece um labirinto mas que com alguma prática nos permite tratar os becos por tu.
Num largo soalheiro, numa esplanada simples, a escolha só podia ser a de sabores alfacinhas. Iscas com elas e petingas com arroz de grelos. Vinho a condizer e uma plateia enorme de turistas estrangeiros comendo bitoques, o cenário perfeito surgiu no momento em que trocou um sorriso com ela. Sabia que os motivos para sorrir eram já muitos mas aquela presença era a maior responsável pelo seu sorriso.
Quando a gentileza de um empregado disse:
-Vão aceitar um café?
Caiu um pano naquele palco. Naturalmente que o café era o anúncio do fim.
Ficaram nas pedras da calçada mais estas memórias que se juntam a milhões de outras que já lá viviam. Nos dias felizes de sol também se morre.
Alguma coisa morreu nesse dia.
sábado, 18 de dezembro de 2010
PRAXIS
A chegada ao cinema e todos os procedimentos necessários para assistir ao filme, já não lhes causava estranheza. Eram um casal habituado aquele espaço e cinéfilos convictos, só lhes faltava ser um casal.
Encaminharam-se para a sala, após a refeição rápida do costume e já no alto das escadas, ela comenta a duração da fita, “… Caramba, mais de duas horas e meia…”. Impõe-se uma ida à casa de banho no sentido de precaver aflições perturbadoras do filme.
Ele ficou imóvel na entrada do corredor que dava acesso às salas. Cabeça levantada, estático, vê aproximar-se uma senhora, menos familiarizada com aquele lugar e esta entrega-lhe um bilhete
- Minha senhora desculpe, mas eu não trabalho aqui.
As desculpas e o embaraço ficaram por conta da interlocutora. Riu-se sozinho pelo caricato da cena e quando a sua companhia chegou, contou-lhe o sucedido e riram ambos por breves instantes. Breves, já que as horas eram apertadas. Vamos indo.
Quando as luzes se apagaram e começou a avalanche de publicidade, mais uma vez o pensamento trouxe à memória a ideia de que estes infindáveis minutos, são uma perda de tempo. Lembrou-se da cena engraçada da porta.”… Mulherzinha tonta, confundiu-me com o porteiro, ou talvez não!...” .
Agiu como porteiro, na figura e na atitude, era um porteiro. Pobre mulher não se enganou. Quem se enganou foi ele ao comportar-se como tal. Sem intenção é certo, sem querer enganar ninguém, claro.
Mas, mesmo não sendo porteiro, comportou-se como tal.
Quantas vezes o latim que nos sai da boca diz uma coisa que não se coaduna com a praxis. Talvez até nos dê um certo conforto egoísta, ou talvez não.
Bem o filme vai começar.
P.S. Praxis (do grego πράξις), em seu sentido amplo, é a actividade humana em sociedade e na natureza.
sábado, 30 de outubro de 2010
Incerteza
Já passava muito da meia-noite quando adormeceu. Aquele adormecer foi único. Experimentou pela primeira vez na vida um adormecer de algodão e só nessa noite a expressão “dormir nas nuvens”, foi por ele compreendida no seu todo. Nunca adormecera assim.
Os últimos seis meses foram uma montanha russa de emoções que teve a sua rampa de lançamento no dia em que, a agora sua ex-mulher lhe disse que ia embora. Aquela que fora a companheira de sempre, desde os tempos do liceu, cansou-se e a meio dos trinta, resolveu aprender o que a vida teria para lhe ensinar. Ele, que absorvido no trabalho e na “normalidade” do dia a dia, nunca soube ler qualquer sinal e o espanto abalroou-o como uma locomotiva desenfreada.
Refeito, como se pode ficar de um tal embate, António havia passado os últimos seis meses em buscas pouco conseguidas de calores femininos. Fraco conhecedor das artes do amor e da sedução, fruto de uma educação pouco esclarecedora, de um feitio muito reservado e de uma vida pouco temperada, via assim as semanas e os meses passarem, sem que as suas investidas na matéria fossem premiadas com qualquer sucesso.
Na semana passada um amigo apresentou-lhe Amélia. Mulher madura e que para além de se ter amolecido com a presença do nosso herói, compreendeu que se queria dançar com ele, teria de ser ela a conduzir em boa parte do tempo e assim facilitar-lhe a vida. Assim o fez e depois de muitas horas de conversa, convidou-o para jantar em sua casa. O inesperado convite lançou António numa febre quase adolescente de preparativos inúteis, que passaram por uma revisão exaustiva de todas as peças de vestuário, barba, cabelo, perfume, temas de conversa, etc, etc, etc.
Os três dias que mediaram entre o convite e a data do evento, foram de trabalho intenso no escritório, mas acima de tudo fora dele. Os resultados da tensão foram notórios nas noites dormidas em sobressalto, nas refeições mal digeridas e na anarquia geral, provocada pelo excesso de atenção naquele jantar.
Á hora marcada subiu as escadas. A cada degrau os sapatos pesavam mais e aquela maldita dor de rins que não o largava há três dias, parecia pontapeá-lo. Era difícil gerir outra posição que não a de deitado. Estoicamente manteve-se direito e sorridente, sentindo mas ignorando a falta de obediência que as pernas lhe tinham.
Amélia recebeu-o num aconchego tão bem gerido que roçava a perfeição nos detalhes e ainda assim o deixava relaxado, estranhamente descontraído. A mesa iluminada por doze velas estava salpicada de pequenos pratos multicoloridos, e neles uma colecção de ingredientes gourmet, dos quais já ouvira falar mas que nunca haviam passado o teste das suas papilas gustativas. Ligações de requeijão com doces, saladas com vegetais vindos de outro planeta, temperos variados que começavam na flor de sal e acabavam no vinagre de chocolate e um vinho de veludo que ligava tudo isto como um luxuoso papel de embrulho.
A tranquilidade do estômago foi-se apoderando do resto do corpo, excepto dos malditos rins. Esse assunto veio naturalmente á conversa e ao ter conhecimento dele, Amélia sorriu, levantou-se e convidou António a acompanhá-la. Deitou-o na cama á média luz e levantou-lhe a camisa descobrindo-lhe as costas. Colocou um saco quente sobre o local exacto da dor e tapou-o com redobrados cuidados. Deixou-o repousar largos minutos naquele conforto e quando entendeu ser conveniente, massajou-lhe as costas de forma lenta e suave. Terminado este tratamento, que acabou por tocar mais a alma do que os rins, encaminhou o seu convidado até ao sofá mais confortável da casa, serviu-lhe um chá de jasmim, enquanto o som da bossa nova sussurrava num canto da sala. Alguns minutos depois despediram-se. Partilhavam os sorrisos abertos mas tranquilos.
Ao descer as escadas, António esquecera os rins, as pernas, os nervos e um rol de inquietações e medos. Claro que continuava a ser uma pessoa como todas as outras, á procura de ser amado e a gerir os seus medos, mas agora com uma confiança única. Apesar de a noite não o ter contemplado com outras intimidades para além das já faladas e de ele e Amélia continuarem a ser duas ilhas, António ganhara a confiança de se aventurar numa próxima vez. Estava longe de ser um especialista na matéria, mas aprendera mais sobre sedução numa noite do que em muitos anos.
Algo estava garantido, hoje adormeceria como nunca e adormeceu.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
No Salão

Ela dançava no salão. Distribuía charme e sedução, suportada por um corpo bem torneado e um palminho de cara que encapotavam bem os seus quase 50 anos. Sorria a cada piropo e em especial vibrava quando estes tinham origem em homens mais novos. Fazia-a sentir-se mais nova, como se tivesse aí a janela de oportunidade para viver o que havia ficado por viver de um casamento longo e precoce. Descobriu que agora a sua liberdade, em especial a proporcionada pelo crescimento dos filhos e aquela que lhe dava um emprego estável e bem remunerado, era um passaporte para a satisfação de quase todos os caprichos.
Gozava agora o facto de poder conhecer homens e tentar vivenciar o que conhecia dos muitos livros e poemas que bebeu, a paixão. Essa misteriosa bebedeira que nunca havia experimentado.
Naquela sexta feira como era habitual, entrou no salão já com a animação instalada e fácil foi chamar um parceiro para dançar. Era um dos muitos conhecidos e admiradores que encantado exibia a sua “conquista” e sentia o coração animado a bater mais rápido que o ritmo daquele cha-cha-cha.
Passaram alguns momentos e os olhos dela começaram a vaguear pela sala. O movimento constante, as luzes imprevisíveis e o som forte, não eram suficientes para a desconcentrar daquela figura do trintão bem parecido, bronzeado e atlético que lhe era desconhecido. Trocaram olhares e sorrisos como se não houvesse um parceiro de baile. Este só sentia que a cada passo era mais difícil acertar o compasso com ela, que ele pensava ser a sua parceira. Sentia-se perdido por ver que aqueles movimentos eram cada vez mais desordenados. Sentiu que era melhor parar. Parou.
Ela que já sabia o desfecho da sua falta de aplicação, alimentou-a até á despedida, sempre sem tomar a iniciativa. Já sabia que aquela figura tão mirada a esperava no canto do salão e que hoje sairia com ele. Ela nunca saía só do salão. Antes mal acompanhada do que só. Podia ser este, quem sabe se este tem um cálice que lhe sirva de uma vez essa porção mágica tão conhecida e nunca vivida, mesmo sabendo que não era um futuro sólido que procurava, mas apenas uma emoção momentânea em segunda ou terceira mão.
Fugiram do salão, das luzes, da agitação e do desconhecimento mútuo. Encontraram-se no calor de uma privacidade e numa agitação próxima daquela que os poemas descreviam.
Encontraram-se.
Ela voltou a perder-se.
Que importa o salão reabre amanhã.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Aos nossos
Rita sobe o Chiado até à esplanada da Brasileira onde Sandra, amiga de longa data, a espera já há algum tempo. São mulheres na casa dos trinta, elegantes e bem sucedidas. Separa-as uma opção de fundo, que lhes marca a vida. Sandra casou há seis anos e dessa relação tem um filho. Ao contrário, Rita manteve-se solteira, mais levada pelos balanços da vida do que por uma opção sua.
Rita chega esbaforida.
R- Estou danada.
S- Pode saber-se porquê?
R- A minha mãe voltou a chatear-me: porque estou sozinha e que os trinta e seis anos já não ajudam a uma solução de vida,"que nunca me vou arrumar”, que devia ter alguém… enfim, o sermão do costume.
S- O normal, até devias de estar já imunizada.
R- Só deixou de ser normal porque lhe falei do Pedro e da relação que mantenho com ele há 5 anos.
S- Disseste-lhe tudo?
R- Disse! Passei-me!
S- Até que ele é casado?
R- Sim, contei-lhe tudo. Estava cansada de esconder. Sentia-me uma botija prestes a rebentar. Fez-me bem.
S- Tu és doida! E ela?
R- Ia morrendo! Talvez nunca mais me fale. Esta coisa das amizades coloridas não se enquadra na sua mentalidade, mesmo explicando que apesar de não ser amor nem paixão, também não é só sexo, é mais. É companheirismo, amizade, colaboração e também atracção sexual, claro que sim, às toneladas, seguramente. O que a mata é ele ser casado. Expliquei-lhe que namorei com ele muito antes da sua mulher e que o “enterro” dessa relação foi selado com um acordo para a manutenção das melhores partes do passado. O nosso jogo de sedução nunca acabou e não podemos ficar sozinhos porque acontece sempre qualquer coisa. Tu sabes bem o que é isso, melhor até do que eu, porque estás no mesmo barco e há muito mais tempo. Conheceste o Vítor antes de conheceres o teu marido?
S- Pois é amiga, há anos que dizemos que não nos voltamos a encontrar, mas estamos sempre a recomeçar. Parece um vício. O Vítor nunca quis um compromisso nem projectos de futuro, para isso tive de seguir outro caminho. Mas olha que sem o Vítor o meu casamento já tinha acabado, ele é uma válvula de escape e, como dizes, é muito mais que físico, embora o que sinto com o Vítor é único, depois ele está lá, sempre lá, seguro e confortável, sem ansiedades.
R- Sem ansiedades mas com ciúmes. Eu sei que isto é parvo, mas morro de ciúmes da mulher do Pedro. Até já tive outros casos também, mas ainda assim arrasa-me a ideia de ela dormir encostada a ele todos os dias.
S- Olha que o desejo de posse exclusiva do outro é ilógico nestas relações. Mas tens razão, a mente humana é muito traiçoeira.
R- No teu caso não sei, mas no meu assusta-me a solidão, talvez seja esta a maior amarra desta relação com o Pedro.
S- Mais vale mal acompanhada do que só!
R- Talvez seja isso, mas estou certa que mesmo que o colorido acabe com o Pedro e que se reacenda com outro alguém, vamos estar próximos para o resto da vida. Há aqui sentimentos fortes, cravados e duradouros.
S- Amiga, associar erotismo e afecto, pode conduzir-nos à necessidade de uma receita perpétua de xanax…
R- Será que estes homens são nossos namorados? Serão namoros não assumidos?
S- Namoro não sei, mas que ninguém os assume, isso é verdade. Tirando uma doida como tu, que resolveu contar tudo e logo à mãe. Lá se foi o respeitinho!...
R- Fiz uma asneira, tenho a noção disso. Ela devia ter sido poupada, tal como todos os outros que gravitam à volta disto. Pior seria se alguém da família do Pedro soubesse da traição.
S- Boa questão! Aqui quem trai quem? Quem é fiel a quem? O Pedro é-te fiel há mais tempo do que à mulher! Ou não?
R- Não me baralhes ainda mais. Estou uma pilha de nervos, nem tanto pela minha mãe saber de tudo isto, até porque isso me aliviou de alguma forma. O que me mata é ver os anos a passarem e continuar sozinha e cada vez mais velha.
S- Tem calma. A seu tempo as coisas vão-se compor e até lá desfruta do que a vida te proporciona de bom.
R- Agora que falas nisso, tenho de me despachar. Hoje ao fim da tarde combinei com o Pedro e não posso demorar-me no escritório.
S- Bem rapariga, brindemos.
R- A quê?
S- À inconsciência, que talvez nos faça felizes.
R- Ou à consciência da nossa tontice ou fragilidade.
S- Ou talvez a nós?
R- Sim. E aos nossos.
S- Sim aos nossos!
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Ouvi dizer

Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!
Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! Ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!
Manuel Cruz
terça-feira, 13 de abril de 2010
Agulha e dedal

Nem sei bem como começar. Talvez pelo espanto, ou pela estranheza, ou ainda pela incompreensão simples. Falam os ilustres economistas desta Europa a "uma data deles" que a solução para o problema grego, passa pela atribuição de um empréstimo aos ditos, no simpático valor de 30 mil milhões de euros. Este será um esforço repartido por todos (uma data deles) excepto os gregos (por razões óbvias). Dada a pequenez de Portugal, cabe-nos uma fatia de responsabilidade de "apenas" 775 milhões de euros.
Até aqui, sabendo da união política e monetária, da solidariedade entre os povos da Europa e ainda que o fogo na casa do vizinho pode chamuscar a minha, até aqui eu entendo. O que falta esclarecer é o facto de uma economia da zona euro chegar a este estado (e há mais países na calha) e como é possível que o BCE aceite relatórios de contas de países que se vieram a provar serem baseados em dados falsos. A falta de controlo das contas que até pode justificar a eleição de algum vice do BCE, mas é um incompreensível pano de fundo para a sustentação de uma das mais fortes moedas do mundo, senão a mais forte. Também aqui este gigante talvez tenha pés de barro. O espantoso em tudo isto é saber que de facto a ajuda vai para a Grécia mas para servir exactamente de quê?...Aplicada onde?...Controlada por quem?.... .
Será que o BCE pode assegurar que estamos a investir na Grécia ou apenas a deitar milhões num saco sem fundo? . Talvez fosse boa ideia cozer o saco em primeiro lugar. Sugiro agulha, linha e dedal.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Lisboa


As placas indicam o caminho. Não há que enganar.
Qual o destino?
Procura-se uma tasca simpática sem descobrir se a fome existe.
Desce-se a calçada com o mesmo intuito com que se sobe.
Por mais que se vagueie por ruas gastas de serem vistas e revistas.
O que fazer?
As placas indicam o caminho. Não há que enganar.
Procura-se o diferente, com um olhar igual.
Arrastam-se as memórias, prontas para um arquivo a criar.
Avança-se com determinação por sonhos ainda por sonhar.
As placas indicam o caminho. Não há que enganar.
Procuram-se os encantos escondidos no caos urbanístico.
Cheiram-se flores e castanhas no meio de pobres e miseráveis.
Acariciam-se bancas de alfarrabistas, á procura de nada.
Contemplam-se sapatos apressados em todas as direcções.
Para onde vão?
As placas indicam o caminho. Não há que enganar.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Admirável e exemplar

Tinha acordado pensativo.
Os seus 36 anos de vida tinham-no tornado numa figura admirável e exemplar. Era o protótipo do funcionário diligente, o que alimentava o respeito dos colegas e arrancava rasgados elogios das chefias. Em casa, face a uma esposa sempre atenta a todos os detalhes da vida familiar, restava-lhe aí um papel de figura de Estado do tipo presidente italiano. Figura institucional esvaziada de poderes executivos. Ainda assim era personagem de referência dos filhos, da mulher e da mãe, aos quais nunca havia desapontado.
Naquela tarde cumpria as rotinas, que de tão repetidas já não pariam qualquer emoção ou imaginação. De repente, do nada, foi assaltado repentinamente por uma séria de perguntas, vindas sabe-se lá de onde. Mas tinha sido realmente ele próprio? Quantas vezes deixou de fazer o que queria? Dizer o que queria? Quantas satisfações deu porque se sentiu nessa obrigação? Será que se perdera numa teia de equilíbrios convenientes? Tinha vivido a sua vida ou a dos outros? E no final, era feliz? Dono de si??.
Dezoito horas. Religiosamente abandonou a repartição e correu para o comboio das dezoito e doze minutos, a C.P. não se compadece com filosofias e assim rapidamente desceu a calçada que conhecia de cor e correu para mais uma vez cumprir o horário. Há hora combinada lá estava o comboio. Via-o já como um bom amigo, tal era a fidelidade por demais comprovada. Entrou e sentiu o aconchego do lugar habitual e mais uma vez deixou-se levar. Estranha relação esta que mantinha com uma besta de aço que o aconchegava, guiava, levava mas que também o prendia. Teve vontade de se libertar desta prisão familiar. O conforto passou a incómodo e antes, muito antes do destino final, saiu. Impelido por uma força bruta, quase como se fosse uma cadeira ejectável em acção.
Saiu perto de Belém e seguiu as pernas que o levavam, mas o espírito estava mais desorientado do que o de um autista a quem mudaram as rotinas. As pernas pararam algures numa esplanada vizinha do Tejo onde sentiu descansar o olhar e a ansiedade sossegou. Respirou uma tranquilidade e um espaço que lhe eram pouco familiares. Olhou o rio e achou-o admirável e exemplar. Se assim era, poderia ser seu irmão gémeo. Semelhança inusitada entre um simples cidadão e um elemento poderoso da natureza como um rio, quanto ás diferenças eram por demais evidentes. Mas quais seriam as diferenças realmente importantes? O tempo de existência de ambos? O seu tamanho? A sua importância para terceiros? Talvez esta massa gigante de água tivesse mais vida do que alguma vez sonhara. Certo era que ao longo do tempo traçara o seu caminho, marcara o seu espaço, definira as suas margens e assim como corria doce e o mostrava aos seus utilizadores, também tinha dias de desvario e capricho que eram demonstrados sem que a opinião dos terceiros fosse importante. Apesar das barragens que o modelavam, continuava a ser ele mesmo. Adaptou-se aos homens e estes a ele, afinal a simbiose existe.
Quando a cerveja terminou, pensou. Vou ser um Tejo! Caramba, como iria reagir o seu mundo, quando o seu eu se afirmasse no exterior? Como reagiriam os outros ao estranho? Talvez fosse prudente usar de bom senso e arrepiar caminho. Mas afinal o seu mundo também tinha o direito de conhecer o seu eu, era uma oportunidade única e as margens não iriam transbordar seguramente. Sorriu para si mesmo antes de chamar o empregado e de lhe pagar. A chegada do funcionário fê-lo mudar de ideias.
-Traga-me mais uma cerveja, se faz favor.
Afinal agora que decidira dar espaço aos seus sonhos e prazeres, agora que sentira o leme do seu navio pela primeira vez, era idiota não desfrutar o momento, especialmente num fim de tarde quente como aquele.
Mais tarde levantou-se para regressar a casa, embora por um caminho diferente do habitual. Ocupava o mesmo corpo, o mesmo espaço físico, mas sentia-se mais leve e ágil.
Despediu-se ali mesmo do sujeito com quem vivera sempre. Esse ficou no cais. Dali em diante era o comandante nomeado do navio de si mesmo. Estava na hora de levantar âncora e navegar em alto mar, deixando para trás a navegação à vista da costa e o posto de grumete. Em frente a todo o vapor. Sim meu capitão. Zarpamos!
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Fernanda
A agitação daqueles inícios de semana era comparável à excitação que precede a largada de uma corrida de automóveis. A visão da chegada daquela mulher franzina de farta cabeleira e olhos penetrantes, era quase um tónico para uma equipa cinzenta, muito aprumada nas suas gravatas de seda e uma forma notável de fugir ao Benfica Sporting do fim de semana. Somava-se a tudo isto o facto de uma mulher sozinha no meio de homens, aligeirar o ambiente e “impor” alguma contenção e educação aos discursos “másculos”.
A delicadeza de modos e a aparente fragilidade física, escondiam um poço de vontade e uma capacidade de trabalho fora do comum.
Tempos passaram e os projectos da Fernanda levaram-na para outros trilhos e naturalmente o afastamento instalou-se. Apenas se ouviam notícias soltas de alguém que se cruzara com ela.
Há dia chegou um desses relatos soltos.
Numa destas sextas feiras, a Fernanda sentiu-se mal. O que parecia ser pouco importante, veio a ser em menos de três dias, a razão para uma partida prematura. Talvez prematura demais para ser até uma partida.
Porque os nossos mundos mudam, o afastamento físico de algumas pessoas é natural, mas as memórias são partes de nós.
Adeus Fernanda
JHPereira
25 Set 2009
Couraçado

Foi uma ideia brilhante para a maioria dos estrategas. Conceito simples, couraça mais forte que os projécteis que o podiam atingir, ou seja inatingível.
Que coisa tão humana esta de construir fortalezas e pensar que estamos dentro e os outros fora, que o nosso poder se pode ostentar e esfregar nas barbas dos “fracos” que ficam do outro lado.
Os couraçados hoje têm outros nomes, chamam-lhes condomínios privados, ou clubes exclusivos, ou qualquer outra forma que permita a uma casta não se misturar em especial com as “inferiores”.
Mas ideia da couraça é tanto menos inteligente quanto a História tem revelado que quanto mais altos são os muros, maior é a vontade de saltar. Curioso é também ver que é justamente paredes meias com o luxo que vive a maior pobreza, o que é natural já que alguém tem de limpar, jardinar, conduzir, tomar conta dos meninos, etc, etc, etc.
O ostracismo tem levado ás desgraças que qualquer compêndio de História relata melhor do que o autor destas palavras. O fim dos couraçados e do seu poder foi no mínimo uma aceitação de derrota, já que os milhões que foram precisos para os construir são ridicularizados pelos tostões necessários para os destruir.
Ora bolas, lá se vai a aldeia dita global.
JHPereira
24-Set-2009
